ficávamos sempre ali, à sombra da cerejeira. deitados no chão, o cabelo espalhado pela terra, as mãos afastadas do corpo, as pernas sem movimento nenhum. deitados, apenas. tu e eu, tardes inteiras. contávamos histórias que nenhum de nós memorizava. íamos falando à medida que a língua nos puxava pela imaginação. e ríamos. tínhamos 20 anos e parecíamos ter 12. e acreditávamos tanto em nós como hoje, como sempre.
perdemos o rasto ao que sentíamos, foi isso? surpreendentemente, aquilo que nos unia é hoje um fio fininho, como um fio de teia de aranha. que suporta tudo, dirás. porém frágil, digo-te eu.
depois, ao final da tarde, pegávamos nas bicicletas e íamos pelo caminho das fontes, apanhar amoras e comê-las quentes, directamente das silvas. acabávamos a comparar línguas, a ver quem tinha a língua mais rôxa. ou preta. depois, para ficarmos iguais, beijávamo-nos sempre e perdíamos a noção dos minutos e quando nos largávamos o sol já dobrava o horizonte e apeteciam-nos sempre mais beijos. que eram doces, como amoras em agosto.
que voltes. só quero que voltes. que me abraces e digas que foi tudo um sonho mau, um momento de fragilidade mais forte do que nós. que me sorrias e me seques as lágrimas que hão-de chegar-me aos olhos, mal olhe para ti. e que me abraces e não digas nada.
depois voltávamos para casa de sorrisos rasgados. davas-me um beijo na cara e dizias, até logo, princesa. e eu entrava em casa cada vez mais certa de que eras tu. de que a metade que me faltava tinha o teu nome e o teu cheiro e de que os teus beijos eram tudo o que eu precisava para ser feliz.
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lénia rufino
2.8.05
3 comentários:
há passagens neste texto k me soam a deja vu...
ultimamente para mim as cerejas têm sido um excelente pretexto para conhecer pessoas magníficas...
não sabia as potencialidades das cerejeiras...e das suas cerejas...
tou agora a experimentar as amoras de agosto...
ficou-me cá dentro esta "...acabávamos a comparar línguas, a ver quem tinha a língua mais roxa, ou preta(...)para ficarmos iguais..."
um abraço doce como as amoras de agosto
Fabuloso... mas isso não é de admirar, né? ;)
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