[ la finestra ]

havia do lado de lá da rua uma janela sempre fechada. cortinas cerradas e, por vezes, estores corridos. nenhum brilho vindo de dentro. nenhuma luz acesa. uma janela como se fosse de uma casa morta.

depois subiam-se estores, abriam-se cortinas e o sol entrava. e eu esquecia-me da solidão. deixava que alguma luz entrasse em mim através do vidro daquela janela e perdia-me nos pensamentos que fugiam para a rua. e o sol a reflectir na janela encandeava-me sempre. eu ficava ali, quieta, até não conseguir ver nada além de uma enorme mancha branca, até queimar a íris e o meu mundo ser só aquela imensa nuvem de algodão que demoraria imensos minutos a passar.

por vezes, de tempos em tempos, víamos uma rapariga do lado de lá da janela. abria as cortinas e ficava ali, supomos que em pé, a olhar cá para fora. como se nunca tivesse visto a rua, como se tudo aquilo fosse um imenso mundo novo para ela. queríamos chamá-la, acenávamos até. mas ela nunca respondia. parecia hipnotizada, em processo de catarse, longe pelo menos. e não insistíamos, com medo que ela se assustasse e se escondesse de novo.

eles acenavam, agitavam com violência os braços na minha direcção. quando estava quase cega pela luz, aqueles braços eram como traços negros, abstractos, arbitrários. não significavam nada. havia um vidro no meio de nós. uma tela de matéria transparente, através da qual era possível ver, mas que não era possível transpôr. um muro de betão armado que nos separava e nos mantinha à distância das coisas que nunca sucedem.

ela não nos via, concluímos. talvez fosse cega e se abeirasse da janela não pelas imagens, mas pelos sons. talvez quisesse sentir o burburinho, a amálgama de sons que, ainda que filtrados pela espessura do vridro, lhe chegavam por ali. por isso ficava estática, de olhos abertos, sem pestanejar sequer. por isso não nos via.

nunca quis que se aproximassem. via-os e podia ter acenado de volta. não quis. o espaço que a janela me garantia protegia-me. podia fechá-la a qualquer momento e cessar de existir no mundo deles. voltaria depois, quando me apetecesse. subiria os estores e abriria as cortinas. e deixar-me-ia de novo encandear.

publicado no diário de notícias, 21 de agosto 2005

7 comentários:

sahara 14 julho, 2005 03:41  

lido, palavra a palavra. gostei. sensação de bem-estar ao deparar-me com o ponto final, como sempre acontece ao ler o que escreves. tão bem, sempre tão bem :)

bj*

Jolie 14 julho, 2005 10:15  

E neste momento vôo a velocidade de cruzeiro por entre as nuvens e os raios de sol!

Continua... que eu gosto de voar!

Beijinhos
Sandra

Ana Rangel 14 julho, 2005 10:43  

Gostei muito... mesmo muito! :)

Beijinhos!

Carlota 14 julho, 2005 11:19  

lindo :)

li@ 14 julho, 2005 15:35  

já não era sem tempo... voltares a esta escrita por onde te conheci! beijos ;)

a mãe dos miúdos 23 agosto, 2005 14:05  

dás-me saudades de escrever.

o texto está lindo. epidérmico.

39 23 agosto, 2005 16:47  

É muito bom ler-te! Parabéns!