éramos sempre treze à mesa. recusávamos supertições e vencia a união familiar, malgrado as histórias que se ouviam por aí e que nenhum de nós jurava não serem lendas. a avó celeste, matriarca antiga mas de mente sã em corpo não tão são, resultado óbvio dos seus 93 anos, criticava a coragem, Não devíamos almoçar treze à mesma mesa, que morre o mais novo ou o mais velho e com certeza não nos querem ver finar assim, de pernil em punho, a mim ou ao roberto. e era sobejamente conhecido o seu medo de morrer. não pela morte em si, mas por, morta, ter que deixar de comandar a vida dos restantes doze.
a mesa parecia gigante e à cabeceira sentava-se sempre a avó celeste, já viúva do avô arménio desde 1959, ano em que violentos fogos acossaram as terras à volta da aldeia e mataram sobreiros e homens sem dó. a avó era sempre a primeira a sentar-se. ficava a orientar os movimentos, as chegadas à mesa, a disposição de pratos e talheres, o brilho dos copos, Ó luzia, traz um pano que estes copos estão baços. a tia luzia, mulher de 74 anos e muito menos genica que a mãe, soprava disfarçadamente, rogava-lhe três pragas que nunca se cumpriam e lá trazia o pano e bafejava para os copos para os limpar. era a mais velha dos 7 filhos da avó celeste e a única que lhe aturava a ditadura.
a avó celeste conhecera o avô arménio quando tinha 16 anos. ele tinha 18 e estava na tropa. passou na aldeia a despropósito e pousou na avó celeste os olhos, concretizando uma improbabilidade que lhes mudou a vida. três anos e muitos enjôos depois, resolveram fugir juntos. estiveram desaparecidos dois anos e, quando regressaram à aldeia, levavam dois filhos nos braços e mais um na barriga da avó celeste. quando chegaram, renegados por toda a família, mais não lhes restou senão lançarem-se ao trabalho. o avô arménio foi para as obras dos caminhos de ferro, a avó celeste dedicou-se ao campo. levava os dois filhos para a horta e deixava-os andar por ali. estava no campo quando lhe rebentaram as águas. estava no campo quando lhe nasceu a criança. cortou o cordão, deu de mamar ao bebé e continuou o que estava a fazer. repetiu a proeza com mais dois filhos e nunca lhe morreu nenhum.
entre filhos e netos, éramos sempre treze à mesa. a avó celeste odiava que ver a sua vida à mercê de um número, saber que podia morrer disso, de sermos treze. e rezava. acabava sempre a rezar o terço e a garantir a deus que aquilo não era um desafio, era antes um azar. quem nos mandava a nós não termos tido mais um filho? seríamos catorze e a sua vida poderia continuar. a tia salomé, terceira da prole e primeira nascida na horta, ralhava-lhe por não nos deixar em paz. dizia-lhe que vaso ruim demora a quebrar e, a avaliar pelos 93 anos que já contava, era bem verdade.
a avó celeste morreu meses mais tarde, muito perto dos 94 anos. num sábado à tarde. o único sábado em que fomos doze sentados à mesa. parou-lhe o coração quando lhe contámos, teve mesmo que ser, que o tio inácio, quinto da linhagem e último nascido no campo, tinha morrido havia duas horas. e passámos a ser onze. e não mais se bafejaram copos. e não mais se sorriu à mesa onde o treze provou ser número de sorte. ou então morreram ambos porque assim tinha que ser.
[ treze ]
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lénia rufino
14.7.05
publicado no diário de notícias, 4 de setembro, 2005
4 comentários:
Isto de ler dois assim, de tacada, no mesmo dia... tem muito que se lhe diga!
AMEI!!!
Como te disse, para além de eu ser o "vaso ruim" (segundo o meu avô, que me adorava, hehehe), a minha avó chama-se Celeste... e há, na família, essa superstição doida do 13!
Gostei mesmo muito... e adoro quando estás para aqui virada! Gosto da maneira que estruturas o texto, dos detalhes...
Mil beijinhos para ti!
Que história... enternecedora... é mesmo isto que lhe quero chamar sem paternalismos!
Gostei muito!
(eu bem sabia que este cantinho me iria roubar tempo hehehehehe)
Beijinhos
Sandra
a tua escrita continua a ser uma inevitável inspiração.
maravilhosamente bem escrito. tal como já nos conseguiste habituar.
bj* estou a adorar mais este cantinho teu :)
obrigada a todas... ;)
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