[ sea salt ]

ficavam sempre na praia até tarde. esperavam que o sol descesse para ocidente, devagarinho e que com a noite viesse um vento frio, que as arrepiava sempre. ficavam ali, a ver o céu pintar-se de vermelho, a olhar o sol reflectido no mar. a contar histórias que inventavam na hora, com mãos cheias de areia que deixavam escorrer devagar por entre os dedos. riam-se e sabiam que eram amigas até ao fim dos dias. quando já mal se via regressavam a casa. paravam sempre a meio da subida e compravam pães com chouriço que comiam enquanto faziam de carro o caminho pelo meio da serra.

riam e arrancavam o sal da pele no entremeio das palavras. tantas que não era preciso dizer. e voltavam sempre ao mesmo sítio. mergulhavam juntas , abriam os olhos na água turva e riam. durante anos foi assim.

cresceram. conversavam esporadicamente à distância que o próprio tempo impôs. lembravam-se das tardes na praia, do caminho pela serra onde, não raras vezes, julgavam estar noutra estação do ano, das saídas para aquele bar na praia com quilómetros de areia e de estórias. e riam. apesar de distantes, o laço que as unia mantinha-se trancado, amarrado a elas inquestionavelmente.

no dia em que a mais nova morreu, roubada a uma vida com tudo por viver, o laço tornou-se tatuagem na pele da amiga. recorda todos os dias o tempo em que as suas vidas foram uma só. sente o sabor do sal trazido pelo sol que se esconde no horizonte. não mais voltou àquela praia. e, no dia em que a mais nova morreu, levou com ela metade do coração da amiga. e esta, mesmo a sangrar, viveu pelas duas. porque há coisas que nunca se esquecem. e que, por muito tempo que passe, levaremos sempre no coração.

2 comentários:

Jolie 18 julho, 2005 12:50  

[a aguardar por novos capitulos]

:)

sahara 18 julho, 2005 17:01  

delicioso. consegues garantir uma perfeição ao texto... cada palavra encaixa perfeitamente na anterior e na seguinte.

adorei *