| serpentes |

de repente o tempo pára. no teu relógio os segundos congelam e entramos numa dimensão paralela, uma lateralidade inexplicável, uma espécie de triângulo das bermudas factual. dizes tudo o que te apetece porque depois sairemos dessa dimensão e será como se nada fosse. escolhes as palavras dando primazia às que magoam e dilaceram. és assim: podendo escolher, escolhes ser ácido. eu oiço, ausente, mas gravo tudo o que me dizes. cada palavra é um traço feito a cinzel, sobre uma pele já demasiado escrita. andamos os dias em passadeiras rolantes contrárias: quando tu vais, eu volto; quando eu vou, tu regressas. talvez seja porque nesta dimensão paralela não há espaço para combinações. tudo são acasos e improbabilidades. depois, ainda do lado de lá, agarras-me a mão, que colocas no teu peito, olhas-me nos olhos e esperas que o tempo descongele e avance, já do lado de cá.

e eu ouvi tudo o que me disseste, como se num sonho. e apesar de recordar cada palavra, é como se não tivesses sido tu a falar comigo, é como se não tivesse sido a mim que disseste coisas impossíveis de ouvir. e eu, do lado branco da vida, esboço um sorriso magoado, porém esquecido e continuo a beijar-te como só eu sei fazer.

um dia morder-me-ás a língua e morrerás envenenado.

| break even point |

eram seis da tarde e chovia. não era primavera, mas podia ser. o rosto dela prendia-se nas folhas e os olhos vagueavam, soltos e trémulos, perdidos. acabara. não sabia exactamente quando lhe tinham desaparecido do peito os sentimentos, mas sabia que não tornaria a encontrá-los. não sabia porque se tinha deixado arrefecer, mas sabia que não voltaria a agoniar-se. sabia, porém, que estava algures entre morta e vazia e não gostava disso. mas não conseguia prender o olhar a nada que fosse, por mais de três segundos. entrelaçava os dedos como que a perguntar o que haveria de ser de si, mas isso não bastava. não encontraria aí nenhuma das respostas que procurava e apeteceu-lhe chorar. todavia, as lágrimas eram coisa que desaparecera muito antes dos sentimentos e por isso soube-se fria. gélida. pensou que não tornaria a encontrar-se em sorrisos, em mãos alheias. absorveu a sua solidão como uma coisa fatal, que duraria para sempre e, apesar da falta de voz, quis poder cantar um fado. nas janelas sujas a chuva traçava rios. as margens mostravam-lhe que, apesar dos dilúvios, nem tudo desaparece. e as pedras da calçada, lá fora, ensopadas, diziam-lhe que chorasse até não poder mais. mas ela já não podia mais havia muito tempo. por isso não soube se era aquilo uma inevitabilidade ou apenas um estar temporário que se curasse quando o outono morresse e, no frio dos dias pequenos, a vida lhe trouxesse um silêncio qualquer.

[ tango ]

cabelo apanhado com força, olhos negros esfumados, boca vermelha-pecado. um vestido preto, rasgado até ao cimo da perna direita. meias de rede e saltos altos. atitude felina, de fome, de luxúria, de prazer prometido para mais tarde.

ele olha-a do outro lado da sala, onde está feito voyeur, à espera. ela meneia a anca e passa a mão pelo pescoço, um gesto de sedução pensado ao segundo. avança para ela e agarra-lhe no pulso, puxando-a para si. prende-lhe a mão com força e ela resiste, porque faz parte da coreografia que não existe, mas que ela cria só para si. ele abraça-a com o outro braço e dança. pernas que se entrelaçam, olhos que se comem, as mãos dele pelo corpo dela, o olhar furioso dela, mais por desejo que por despeito e a dança segue. apertam-se como se o mundo fosse acabar por ali e palavra nenhuma os interrompe. só a música, quente, cadente, voraz os penetra com força. e o mundo desaparece e a sala são só eles e os passos de tango que correm por eles como uma torrente.

a música pára, o suor aviva-se na pele. as mãos dele no corpo dela, o vestido rasgado no chão e o desejo a possuir o momento, numa dança de fantasias e promessas por cumprir. como num tango vadio, ouvido entre vielas de buenos aires. como numa vida inventada à pressa, com tudo por refazer.

[ struggling ]

keep your head above the watter.

era inverno e estava o frio que ser quer nos invernos rigorosos e sem chuva, gélido. ela andava perdida, mãos enterradas nos bolsos, pensamentos enterrados longe. chegava de mansinho e abria as janelas que fechava logo a seguir porque o frio lhe gelava tudo, inclusive os pensamentos. mas ficava ali um bocadinho, a ver a árvore semi-despida, pacientemente plantada no quintal. depois descia, bebia um café ou fazia um chá verde e subia novamente, para fingir, durante sete horas e meia, que não se lembrava de nada.

ele chegava, ouvia-se o bip do alarme ao trancar o carro, ouviam-se os passos dele na entrada e a mala do portátil a ser pousada no chão. cinco segundos depois, o tempo de cumprimentar os colegas, ouviam-se novamente os passos dele na escada e sentia-se um suave travo do seu perfume. assomava-se à porta do gabinete dela e dizia-lhe bom dia. ou então ia até à secretária dela, apertava-lhe a mão e dizia-lhe bom dia. ou então puxava-a pela mão, abraçava-a, perguntava Estás bem, querida e dizia-lhe bom dia. ou dava-lhe um beijo quase-na-boca e dizia-lhe bom dia.

ela respondia a tudo com um sorriso e falava dos casos e falava dos tribunais e marcava-lhe as audiências na agenda e perguntava-lhe se precisava de alguma coisa com o mesmo sorriso de esfinge de sempre. e ele ficava sem a conseguir ler mas não se preocupou com isso até ao dia em que lhe disse que não a conseguia ler e ela lhe disse que era porque não queria que ele a lesse e ele percebeu que havia qualquer coisa que ela estava, em vão, a tentar esconder.

breathe before you drown.

e houve um dia em que o beijo de bons dias foi um beijo de quero-te para mim. e ela entrelaçou a sua língua na dele, como uma promessa de amor para sempre. como nos filmes demasiado fáceis. e foi por isso que não foi fácil, porque ela, metade mulher, metade esfinge, achou demasiado fácil apaixonar-se por ele e ele por ela e então quis apenas que fossem amigos, apesar dos beijos, apesar das horas passadas a sonhar com minutos impossíveis, apesar do frio gélido do inverno rigoroso, apesar da distância e da proximidade. apesar do amor que lhe tinha decidiu que não podia ser fácil e portanto complicou o que poderia ter sito somente uma banal história de amor. e então ele lutou e fez das tripas coração e usou todos os clichés, ofereceu-lhe rosas em bouquets pirosos, escreveu-lhe post-its que lhe colou no monitor, ligou-lhe a horas pornográficas, directamente para o voice mail, apenas para dizer que a queria, arranjou quem lhe fosse fazer uma serenata, atirou-lhe pedras à janela, quase até lha partir, esvaziou-lhe os pneus do carro, perseguiu-a pela cidade, soube sempre onde ela estava, com quem e a fazer o quê. mas não soube que ela também o amava e que a fuga dela era tão somente a sua forma de prolongar aquele amor, de o tirar do corredor da morte das coisas demasiado fáceis a que ela não conseguiria nunca sobreviver. e então complicou-lhe ainda mais a vida, fugiu dele como o diabo foge da cruz, ignorou-o, tratou-o como se trata uma parede qualquer, fingiu que não o via, usou e abusou da sorte.

até ao dia em que ele, esgotado de tanto se consumir por ela, de achar que ela era uma serpente e de se ver sem futuro nem nada onde se agarrar resolveu que o melhor era desaparecer e tirar um ano de licença sabática para ir para qualquer lado onde ela não estivesse, apesar de todos os lugares lha fazerem lembrar, principalmente porque, onde quer que fosse, ele a levava consigo acorrentada no coração. e ela sentiu-lhe a falta e quis falar com ele, procurou-o, percorreu os caminhos dele, virou este mundo e o outro à procura dele, apenas para lhe dizer bom dia, para lhe dar um beijo quase na boca e para lhe dizer que aquilo sim, era um amor para toda a vida, dos difíceis, quase impossíveis que eram os únicos que ela sabia viver.

turn over to see nothing.

ela regressou a casa, sem o encontrar. nem soube que ele esteve sempre sentado no chão da sala, horas e horas a fio, a reler todas as mensagens, todos os emails, a ouvir todas as músicas que lha traziam de volta. não soube que ele esteve sempre ali a treze minutos de casa dela, perdido e mutilado porque pensou que ela, metade mulher, metade esfinge, lhe colocara um enigma que ele não conseguiu ainda resolver. e ele não soube que ela o procurou mundo fora, que chorou mais do que o possível, que viveu de ar e esperança semanas a fio e que se sentiu morrer por dentro quando achou que não havia nada a fazer. embora a esperança, essa viúva persistente, lhe tenha segregado todos os dias que ele havia de voltar. e ela foi ao único sítio onde era impossível que ele estivesse, apenas para imaginar como seria vê-lo ali, à porta de casa dele, chaves na mão pronto para sair. e por casualidade ou por conveniência desta história de amor, ele estava mesmo à porta de casa, de chaves na mão, pronto para sair. e ela entrelaçou a sua língua na dele, como se fosse uma cobra-capelo, e jurou nunca mais o deixar fugir.

[ um começo talvez tardio ]

diz, é hoje. e começa a escrever. dedos ágeis a viajar pelo teclado, plano nenhum feito com antecipação. a total ausência de método. cada palavra escreve a seguinte, como se uma necessidade. e escreve. diz as coisas que só um distanciamento a que chama uma espécie de experiência quase-morte lhe permite arquitectar. não é magistral. é talvez até demasiado mediana. nem tem nada de extraordinariamente divergente para contar. nada que valha o preço que se paga por um livro, pelo menos. mas escreve. e assim começa o primeiro romance da vida dela.

[ por vezes ]

às vezes. como a luz que cega e que me obriga a abrir os olhos e a tactear com as pontas dos dedos. a porta fechada que abro e que se fecha imediatamente atrás de mim. a tua imagem em fotografias gastas de tanto olhar para elas. as tuas fotografias em que capturaste momentos e os tornaste teus.

a gota de chuva na janela.
o gato sonolento meio raio de sol.
os degraus gastos de tanto os descermos.
a teia de aranha quebrada e mortal.
gente que entra e sai do metro.
sombras projectadas no chão.

e depois, oblíquo, o teu silêncio. essa vã memória de que não posso fugir. e nem que reescreva mil vezes o teu nome. a tatuagem já se desfez por combustão. e nem os silêncios mais sinceros me bastam. para quebrar o enguiço e desmembrar o dia que amanheceu. se ao menos eu soubesse onde estás. se te dissesse as verdades todas sem respirar. e se tu ouvisses sem fazer perguntas. e se me fotografasses depois, mais por teimosia que por recordação.

[ abranda ]

houve dias em que te trouxe preso nas mãos. em que te algemei e me passeei contigo pelas ruas, a fugir das sombras, à procura dos silêncios das esquinas vazias. a contar os minutos para as seis, hora a que a cidade se ergue inteira. dias de névoa e de espaço branco. vazio.

não sei ler os traços que tenho nas mãos, nem sei se algum quer dizer-te. mas sei que me doem todos os segundos em que te olhei e não te li. escrevi tanta coisa a baixo-relevo na pele e hoje o que vejo são meras cicatrizes. como fotografias amarelecidas, sem legenda, que já não sei onde tirei.

peço-te que me amarres e faças de mim âncora. que me traves e me obrigues ao silêncio. que desças comigo os degraus que entram pela água e me deixam em branco. que me dances como se dança um tango, sem fôlego, sem ar, sem espaço nenhum vazio à nossa volta.

e quebra-me os ossos se isso me fizer abrandar e se ainda precisares de mim para nascer.